domingo, 16 de maio de 2010

Domingo de manhã bem cedo...

[ou Como (não) ver a (atro)cidade...]

Sopa no café da manhã no super. Sopa de verdade, não aquela Campbell’s (soap), mas esta aqui, de mocotó, coisa pra levantar defunto. Uma bela japonesinha me olha, pernas torneadas, óculos Dolce & Gabanna com a logo em outdoor na armação, lentes grossíssimas como sua boca suculenta, glossíssima. Devo estar parecendo um zumbi, insone, ou o que resta de um vampiro amanhecido, fugindo dos primeiros raios de sol, escondido atrás do ray-ban wayfare, depois de uma aventura notívaga que não deu em nada, nem um pescocinho... Sua companheira ao lado, uma loura (falsa, cara suburbana), percebe a estranha e magnética atração mútua de nossos olhares entrecruzados e faz cara malvada de ciúme. O garoto pretinho e faminto que está com elas (adotado?) encarrega-se de dispersar nossa atenção derramando o chocolate na mesa. Mudo a visada para o “grande vidro” duchampiano da vitrine do supermercado que dá para a avenida. Sinto-me imerso naquela redoma do café na alta madrugada dos “Nighthawks” de Hopper. Mas já é de manhãzinha e a retícula do grande vidro parece agora lembrar mais um Domingo de Seurat, filtrando a luz-e-sombra das mangueiras lá fora, uma bela paisagem pixelizadas pós-impressionista. Uma cidade que já não mais nos pertence, pois o flâneur há muito foi substituído pelo flanelinha. Faz tempo que a natureza foi embora para sempre e agora o que nos resta é apreciar, nostálgicos, o paisagismo décor dos nossos condomínios de segurança máxima. A bordo de um niilismo blasé, nos satisfazemos ao enquadrar a cidade exclusivamente através das janelas de nossos carros blindados – blind’n the windows: quantas paisagens deve um homem apreciar até que perceba que está cego?
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Envio esta mensagem “domingo de manhã bem cedo, sopa no café da manhã do super...”, para todos da minha agenda celular. Logo alguém responde: “tá ficando doido?! domingo, essa hora?! vai dormir que o teu mal é sono...”. Dou uma gargalhada, nem confiro quem é, e deleto. Ele ou ela, quem quer que seja, tem razão. Levanto e pago a conta. A moreninha do caixa é uma jóia exótica, parece uma tailandesa (uma caboquinha de Tailândia, faroeste do Pará). Tento puxar uma conversa fiada, ela apenas sorri sem sequer levantar a vista e se limita a passar o troco. Acho que me tornei invisível. A japinha já se mandou que eu nem vi. Na saída, já na rua, fitaria, tal qual uma “vampirinha de luxo”, a vitrine do supermercado e notaria que a “impressão” do lado de fora é outra: o “grande vidro” torna-se espelhado, cujo efeito reflete e, ao mesmo tempo, repele a cidade, deformando-a cubisticamente, distorcendo os prédios decrépitos daquele velho boulevard Baudelaire e fazendo-os parecer uns Frank(stein) Gehry periféricos. Logo começa a chover, e então assisto aquela cidade espelhada no vidro dissolver-se na marxiana modernidade líquida e tardia de Bauman. Entro no carro, visto sua carapaça blindada fumegante e, então, ligo o ar-condicionado no máximo. Ahhh..., nada como um clima mais civilizado. O ar frio condensa o interior quente do carro e embaça todos os vidros, inclusive as lentes escuras do meu ray-ban. A cidade vai se esvanecendo lá fora, tudo se esfumaça no ar. Deixo assim mesmo. Dou a partida e vou. Let it blind...
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Jorge Eiró, 16 de maio de 2010, domingo de manhã bem cedo...

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