quinta-feira, 17 de abril de 2008

A marca chique da Livraria Maranhense.

Uma raridade que conseguimos digitalizar: a marca da Livraria Maranhense. O proprietário, Antônio Facióla - com acento agudo no "o" -, foi intendente municipal de Belém em 1929, quando comprou o relógio para a Praça dos Aliados (do Relógio), dizem, com o seu próprio dinheiro. Morava na esquina da Av. Nazaré com a Dr. Moraes, no Palacete Faciola - que há pouco foi desapropriado pelo Estado. Era acionista do Banco do Pará e da Cervejaria Paraense. Dono da maior coleção de Emile Gallé no Brasil, usava enormes anéis de brilhantes e passeava em seu Rolls-Royce ou Cadillac guiado por garboso chofer; o confundiam, em París e Viena, com os príncipes russos, mas...o mais importante de tudo: era um exímio pianista que integrou o corpo docente do embrionário conservatório de música, hoje Funfação Carlos Gomes. Seus comentários sobre os requintados espetáculos apresentados no Theatro da Paz geralmente eram transcritos por jornalistas que ao lado dele se sentavam para captá-los. Ele morreu em 1936, mas vamos investigar e postar mais informações, inclusive folclóricas, sobre essa figura; afinal, ele era "o cara"!
PS.: A chácara Bem-Bom, que fica na Av. Almirante Barroso entre Mauriti e Barão, erroneamente chamada de "Palacete Faciola", também era dele!


Banco do Pará: Rua Conselheiro João Alfredo.
Fábrica de Cerveja Paraense: Avenida Independência, defronte ao colégio Gentil Bittencourt. Duas vistas: interna e do Bar Paraense.
Praça do Relógio na década de 1940.
Antônio Facióla: amigo de Carlos Gomes e um exímio pianista:
"O conservatório, que se vinculou à historiografia musical do Pará por tão dignificante contribuição, ressurgiu em 1929, no Governo Eurico Valle, e com o apoio do então Intendente Municipal de Belém, Senador Antônio de Almeida Faciola, que havia integrado o seu corpo docente na arrancada inicial. Esse reaparecimento, teve nos maestros Ettore Bosio e José Domingues Brandão e professores Cincinato Ferreira de Sousa e João Pereira de Castro os seus mais vibrantes entusiastas, que tornaram realidade a magna ocorrência em solenidade, presidida pelo Governador do Estado, em 11 de julho de 1929, no Theatro da Paz." (http://www.fcg.pa.gov.br/iecg.htm)
Foto oficial de Antônio Facióla no Senado do Estado do Pará e Intendência Municipal 1929.

Revista Claudia de maio de 1977: Dona Iná Faciola, filha de Antônio Faciola, é a guardiã das muitas obras de arte compradas na Europa no período áureo da borracha.
( ( (Clique sobre as imagens para ampliá-las!) ) )
Leia mais sobre Antônio Facióla na Web:


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Um burro diante do palácio*

Basta uma casa velha ameaçar cair em Belém que a televisão transforma o fato em prioridade absoluta; enche a paciência dos espectadores com uns debates estapafúrdios entre autoridades e proprietários, pessoas comuns e intelectuais, que vão, quase todos e quase sempre, às teses acadêmicas, buscando nelas as razões puras que aticem a vaidade de um povo “dono” de um passado relativamente próximo e que se via venturoso com as coisas que só no Velho Mundo existiam.

Para evitar leviandades, o termo “casa velha” não será sinônimo do “casa antiga”. Muito menos do “velha casa” – esta seria a casa da vovó, ainda intacta na minha memória. Lá eu tirava o gogo das galinhas, apanhava abricó, tocava fogo no rabo do gato e comia a empregada. Esta foi ao chão faz tempo, não saiu nos jornais nem na televisão e ninguém morreu por isso – Ah, no lugar dela tem um “belo” edifício!

Esclarecemos ao leitor que Casa Velha é um ente físico que geralmente é deixado de lado por não cumprir a necessária relação de cumplicidade com o seu dono. É como o fim de um casamento, de um namoro, de uma amizade. Dói muito na alma, remói o estômago, mas o abandono é inevitável. Algumas vezes o deixado não se amargura tanto e “vai à luta”, malha pra cacete, pinta o cabelo, conserta os dentes, volta a fazer sucesso e acaba por arranjar outro alguém que lhe dê importância. Noutras o desamparo provoca a depressão, a angústia e o definho, que sem um tratamento específico e caro levará a inevitável morte.
Belém é uma cidade esplendorosa que tem um monte de casas velhas. Por que a Cidade Velha não é chamada de Cidade Antiga, Antiga Cidade ou Velha Cidade? Ora, porque ela é cheia de casas velhas!

É axiomático que as edificações que não correspondam mais às necessidades de seus moradores tenham que ser vendidas ou adaptadas às exigências prementes, caso contrário, tornar-se-ão obsoletas e dispendiosas, abandonáveis. À época da Hevea brasiliensis erigiram, por essas bandas, um bocado de coisa boa, bonita e cara. Uns casarões enormes com o pé direito entre cinco e seis metros. Essa imponência de palácio conjugada às técnicas de ventilação e iluminação resolvia o orgulho e o bem estar do dono. A figura da suíte já aparecia e os espaços contíguos captavam melhor a claridade diurna que pelas muitas janelas entrava. Os quartos, interligados por portas, abrigavam os numerosos e abastados membros das famílias. Os espaços eram generosos porque os agregados apareciam sem aviso, com um bilhetinho de apresentação em punho, e por lá iam ficando – com direito a casa, comida, roupa lavada e o colégio – até saírem formados, porque a educação fazia parte do pacote. Era o modus vivendi daqueles que mandavam até suas roupas íntimas serem lavadas em Paris, de lá também vinham os arranjos de flores que enfeitavam as fabulosas festanças. Dinheiro bom e sem cabresto. O látex era o suporte mor para o luxo e a excentricidade. Não havia “puta pobre”.

Só que a borracha perdeu o valor de diamante que vinha mantendo por alguns anos e o Estado e a Cidade foram-se a bancarrota. Tudo ruiu. De lá pra cá o mundo mudou de rota várias vezes até que miniaturizou suas manufaturas para que hoje convivamos, todos nós, com uma economia global virtualizada ou virtual globalizada. Mas isso não importa, ninguém sabe do que se trata mesmo. Neste instante a nossa moradia deve ser universal e suficientemente “segura” como os apartamentos, os apart-hoteis ou os condomínios fechados.
Da mesma forma que o tempo das tecnologias foi incrivelmente veloz para que elas provocassem em nós prazeres quase absolutos, o tempo das casas citadas acima estagnou-se e essas moradias ficaram desconectadas à essa nova realidade. E, se ainda levarmos em consideração os custos com IPTU; energia; empregados; segurança; infindáveis reparos de telhado, de assoalho, de estruturas internas e externas; pintura; zelo; etc. concluiremos o quão inviáveis elas se tornaram.

Prestes a levar um tombo, o palacete Faciola, ora em evidência suprema, é um exemplo cabal para ilustrar esta prosa: O cara que lá morava era provido abundantemente de dinheiro, cultura e poder. Levava uma vida de lorde e até confundido como um príncipe russo em Viena ele foi. Figura aristocrática como essa não há mais em Belém. Desde 1936 não se vê um Antônio Faciola com aqueles absurdos quatro anéis de brilhante no dedo anelar da mão direita sentado ao banco de trás do seu Rolls-Royce que sempre era conduzido por um garboso chauffeur com boné de aba transparente. O cidadão morreu e deixou sua herança aos filhos que a mantiveram até o limite de suas posses, precisamente até 1982 com o falecimento da Dona Inah. Temos aí um saldo positivo de 46 anos de cuidado absoluto com um patrimônio adquirido no tempo em que o dinheiro era capim. Esse balancete com incontestável superávit foi publicado na revista Cláudia do mês de maio de 1977: “Dona Inah Faciola (foto) e a coleção de obras deixadas por seu pai em 1936. Tudo comprado na Europa. Móveis, porcelanas, cristais, Gallés, Daums. Esculturas de Charpentier. Tudo carinhosamente guardado durante anos. Um verdadeiro museu da época em que a borracha era ouro”. Dona inah faleceu cinco anos depois dessa matéria e foi velada no Palacete – seu último instante de gardiã dos símbolos do passado generoso e glamouroso que ela vivera e era sabedora do seu impossível retorno. A “Cláudia” concluiu seu texto com uma análise pueril do palacete e fez sua previsão sensata: “Nenhum quadro triste. Nenhuma concessão à violência: em todas as peças de arte do Palacete Faciola só há flores, felicidade, amor. Desde 1936 nada é mudado de lugar. Até quando dona Inah poderá, sem ajuda, manter este tesouro?”. Até aqui o Palacete Faciola pode ser chamado de Casa Antiga, depois disso não mais.

Virando apenas mais duas casas velhas da Cidade, o Palacete Faciola e a Chácara Bem Bom sempre estiveram disponíveis àqueles que quisessem adquiri-las. De 1982 até o ano passado foram feitas ofertas irrecusáveis aos dois imóveis. Propostas que no bojo garantiriam empregos fixos à população, renda para a Cidade e o Estado e, o mais interessante, a restauração e a manutenção das propriedades. Não mais como moradias, mas com finalidades lucrativas para autosustentação – bancos, casas de chá, restaurantes, centros comerciais, supermercados, escolas, estacionamento, etc. Contudo, a areia governamental sempre foi o maior obstáculo para que os acertos fossem adiante. A mesquinharia de algumas autoridades, as especulações desequilibradas advindas da boataria permanentemente de vigília e a paranóia truculenta dos intelequitualóides marxistas, sempre impediram o andamento de toda e qualquer negociação. Um ranço impossível de haver na outrora biliardária Belém.

Coisas dessa natureza revelam o grande despeito dos políticos de hoje para com os de ontem e estabelecem a única verdade: Belém é falida desde o declínio da borracha e não merece mais comportar dentro de si uma arquitetura de gestos magnânimos que foi palco da sua própria história recente. O que o poder público fará com o Palacete? Irá restaurá-lo de forma apressada e incompetente como fez com uns poucos bens ou o deixará fossilizado para que em um futuro longínquo, quando Belém se recuperar da letargia histórico-cultural, ele possa se explicar, através das inúmeras placas de propaganda que o rodearão, aos arqueólogos. A Chácara Bem Bom da antiga ferrovia Belém-Bragança prova que isso não é uma viagem insólita nossa: essa chácara, após seu desmoronamento, foi desapropriada pela Prefeitura Municipal de Belém que pagou por ela um preço muito aquém de seu valor – isso está sendo questionado na justiça pelos herdeiros.

Com todo o dito já se faz possível perceber que o Palacete Faciola nem uma casa velha consegue ser. É ele hoje uma Casa Morta que carece de sepulcro o mais breve possível. É uma habitação que não aguenta mais as humilhações que lhe foram impingidas e o desrespeito a história dos seus apaixonados senhores. Foi ela abandonada pelos sucessores desses, ficou a mercê das intenções de investimento da iniciativa privada e por fim, foi vítima do jogo de poder e da sabotagem promovidos por autoridades que a fizeram definhar até o ápice de sua desvalorização, isso, com o premeditado e sórdido propósito de comprá-la por preço vil. O mais justo é deixá-la morrer em paz e construir sobre ela um “belissímo” monumento à era da fortuna, à era do brilho, à era que todos parecem ter necessidade de esquecer, porque, de tão próspera que foi, jamais se repetirá pelas mãos dos homenzinhos da atualidade. Quem gozou da oportunidade de vê-la reluzente e conviver com os seus, a terá sempre na memória, e jamais será mais "um burro diante de um palácio"!.

01 de setembro de 2000.

Haroldo Baleixe
*Texto publicado na revista eletrônica Belém do Pará sob o título "Um burro olhando para o Palacete Faciola".
Oscar Faciola: carnaval de 1916.  talvez no (folclórico*) Rolls-Royce 1915 de Antônio Facióla, seu pai, com chauffeur e umas "gatinhas" da época.
Carta de Antônio Facióla ao seu filho Oscar, datada de 17 de setembro de 1921. Clique na imagem e leia seu conteúdo: Antônio Facióla desenha a política econômica de Epitácio Pessôa como nociva ao Pará.
Carta de Antonio Faciola ao seu filho Oscar, datada de 14 de novembro de 1921: Nas duas missivas há referências ao "Marco" (da légua) como sinônimo da chácara "Bem-Bom": "paraíso". Essa chácara, após o desabamento da edificação, foi desapropriada pelo prefeito Edmilson Rodrigues para a construção de um hospital psiquiátrico. É aquilo que se vê na Almirante Barroso, entre a Mauriti e a Barão: uma fachada assustadoramente fora de nível com uma obra inacabada por trás. Tudo plenamente pichado!

*Há um folclore citadino que Antônio Faciola possuía um Rolls Royce; até o início da década de 1980 o povo acreditava que ele estivesse guardado na garagem do Palacete, mas lá só havia um Bel Air da década de 1950, de sua filha Inah.
Antônio, quando Intendente de Belém, entre 1929/30, foi presenteado, pelo Alto Comando do Comércio, com um Cadillac.


4 comentários:

  1. Estava à procura de artigos sobre Belem à época da borracha quando me deparei com este blog simplesmente maravilhoso! Vou indicá-lo para meus amigos.
    É uma pena que nossos governantes não valorizem a conservação de nosso patrimônio histórico! Ainda bem que existem pessoas como vc Haroldo que possibilitam que jovens tenham acesso a esta janela para o passado!

    Um abraço carinho e agradecido por essa massagem na alma

    Célia Cordeiro!

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  2. Senhor Haroldo Baleixe,
    Gotaria de cumprimentá-lo pelo seu blog e, principalmente, pelos textos e imagens, o que diferencia este espaço virtual.
    Se o senhor puder entrar em contato comigo através do j_vidigal@gmail.com agradeceria muitíssimo, pois possuo algumas imagens do Rio de Janeiro antigo e, pelo visto, o senhor dá alguma burilada nas imagens para melhorá-las. Se eu pudesse enviá-las digitalizadas o senhor daria esse tratamento? O sehor poderia posta-las no seu blog, sem problemas. São exclusivas e há muitas do aterramento do Flamengo.
    Obrigado.
    PS.: Enviei um e-mail para o senhor com este mesmo texto.

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  3. Haroldo, postado. Vamos ver se algum amigo pode falar mais sobre o Cadillac.

    http://carrosantigos.wordpress.com/2009/01/25/qual-o-carro-do-antonio-faciola/

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  4. Excelente o seu trabalho jornalistico, cultural e da história de Belém do Pará, estava pesquisando sobre o prédio na Almirante Barroso e tirei foto do mesmo como palacete Facióla, porém, tenho como hobby a arte fotográfica e pesquisar de fato cada local que está sendo fotografado e encontrei neste seu blog as informações históricas, só tenho que agradecer e pedir para você não parar com este seu trabalho que poucos fazem. A foto deste prédio construido na chácara de nome BEM-BOM na época da borracha será inserida no site abaixo donde divulgo para o mundo o que temos de melhor em nossa região norte, muito obrigado Haroldo Baleixe. Heraldo Amoras_Monte Dourado-PA. www.panoramio.com/user/heraldoamoras

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